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No Brasil, esquerda e direta amam o Estado
Em muitos países, a direita acusa o Estado de ser perdulário, e os governantes de demagogos a serviço dos pobres e inúteis. A esquerda acusa o estado de ser uma extensão ao poder econômico dos ricos. Mas no Brasil todos amam o estado.
Esse curioso fenômeno tem uma explicação. No Brasil as elites endinheiradas não adquiriram seus bens e nem obtém suas rendas por meio da iniciativa privada. A fonte real de suas fortunas é a apropriação, legal ou não, do patrimônio do estado.
Isso vai desde o empresário, que se financia com generosos empréstimos do BNDES, passando pelas empreiteiras de obras públicas, sempre superfaturadas, e pelas incontáveis sinecuras e cargos muito bem remunerados no “serviço público”.
O que para um burguês norte-americano ou europeu é um peso, ou no máximo um “mal necessário”, para o burguês brasileiro é o seu próprio meio de vida. Isso explica as dificuldades para a introdução do neoliberalismo no Brasil. A redução do tamanho do Estado seria para nossa elite, um tiro no próprio pé.
A esquerda ama o Estado porque a maioria de seus membros, na realidade, não representa nada para as classes trabalhadoras. Seus maiores expoentes são intelectuais, cujo verdadeiro objetivo é conseguir uma bela “boquinha”, em algum órgão público ou empresa estatal. Daí eles poderão, confortavelmente, expor suas opiniões “revolucionárias”.
Nada como um bom cargo público, onde se tem estabilidade no emprego, para propor aos trabalhadores do setor privado a realização de greves e protestos. O que pode ser melhor do que um cargo de professor em universidade pública, sustentada pelo dinheiro do contribuinte privado, para ter tempo e sossego para elaborar teses criticando justamente o setor privado?
Isso pode ser percebido pelo fato de que, independentemente da orientação política dos governantes eleitos, seja de que supostas orientações ideológicas digam ser representantes, duas coisas são sempre certas: O aumento dos impostos e uma onda de nomeações de novos funcionários, sem que nenhum dos existentes seja demitido.
Depois os dois lados podem travar uma infinita discussão sobre taxas de juros, carga tributária, déficit previdenciário, etc. Todas as propostas são boas para serem discutidas. Menos é claro, a mais óbvia: Tirar o Estado das costas do povo.
Qualquer proposta nesse sentido é logo rechaçada pela esquerda como “privatização” do Estado, e pela direita como “diminuição da capacidade de investimento”, que supostamente beneficiaria a sociedade.
Ao povo, sobra pagar a conta e ainda ser obrigado a participar das festinhas periódicas que se convencionou chamar de eleições.
Escrito por Lauro Monteclaro às 18h54
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Irrelevância do estado torna eleições americanas uma farsa
Se você acha que nos EUA as eleições presidenciais são uma “guerra ideológica” envolvendo opções críticas e escolhas importantes, saiba que na opinião dos que entendem do assunto, isso não passa de uma farsa.
Em artigo escrito por Caio Blinder, especialista em política norte-americana e conhecido por suas informações precisas e objetivas, podemos ler que “Intelectuais mostram que a polarização da eleição americana, vista como uma ‘guerra’, é um mito, fruto de uma manipulação das elites de Washington, dos ativistas partidários, dos lobistas e da imprensa. Quanto mais quente, melhor para desfazer a impressão de chatice e apatia política”. (1)
Mais adiante, Blinder cita Samuel Abrams (universidade de Harvard): “existe um declínio de engajamento político. Os eleitores têm pouca informação e exigem pouco. Isso permite que a agenda e o espaço sejam controlados por comentaristas de talk shows, candidatos, ativistas e as elites polarizantes. O país não é vermelho nem azul. É cinzento”. (2)
Em outra página, Blinder é mais específico. “O maior exemplo de batalhas ideológicas estéreis está na disputa entre os canais de notícias 24 horas CNN e Fox News”. (3)
Mais adiante: “Para quem gosta de ruído oratório, batalhas ideológicas estéreis e celeumas artificiais, a televisão por assinatura é irresistível”. (4)
Por que seria assim? O que faz com que o país que possui a democracia mais bem consolidada do mundo veja a eleição para seu cargo mais importante, como assunto no mínimo irrelevante?
É simples. Com a globalização da economia, os estados nacionais perderam praticamente qualquer importância decisiva. Para quem de fato acompanha o que importa, as manobras de Bill Gates ou as estratégias da rede Wal-Mart, são muito mais importantes e tem muito mais conseqüências na vida das pessoas do que a eleição do presidente dos EUA.
Os governos, todos os governos, se limitam a seguir uma recita estabelecida, em conformidade com os interesses das grandes corporações globais. Isso explica a enorme importância dada a guerra do Iraque, ao casamento gay ou a polêmica sobre o aborto. Fique do lado se quiser, nada disso interfere com o que de fato importa.
Mas de qualquer forma, é importante que se mantenha a ilusão de que o governo americano, ou qualquer outro, continuam no comando, por isso, o show deve continuar...
Escrito por Lauro Monteclaro às 18h56
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Notas:
(1) “Ketchup, suor e lágrimas” - Revista Primeira Leitura – Setembro/2004 – Pág. 64
(2) Idem, pág. 65
(3) Idem, pág. 67
(4) Idem.
Escrito por Lauro Monteclaro às 18h56
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Os novos empregos que ninguém vê
Uma afirmação quase obrigatória quando se trata de analisar o desemprego causado pela tecnologia, é a de que novos e melhores empregos são ou serão criados. Só que nunca são identificadas essas supostas oportunidades.
“O diretor técnico do Dieese, Sérgio Mendonça, disse que, nos EUA e no Japão, que já passaram por uma ’revolução tecnológica’, ouve a criação de novos setores a partir do aumento da produção”.(1)
“O presidente da UDR, Luiz Antonio Nabhan Garcia, diz que, ao analisar o agronegócio como um sistema inteiro, nota-se que ele é gerador de empregos. Segundo ele, são gerados empregos em outros pontos da cadeia econômica, como na indústria de processamento das produções nas cidades e no complexo exportador”. (2)
Afirmações desse tipo são praticamente obrigatórias em qualquer texto que trate direta ou indiretamente da questão do desemprego causado pelas tecnologias substitutivas de mão-de-obra.
Em quase todos os artigos, nota-se um enorme descompasso entre a precisão dos números referentes aos postos de trabalho eliminados e as supostas vagas criadas para substituí-los. No primeiro caso, os estudos apresentam estatísticas claras, baseadas em fontes reais e confiáveis de informação. No segundo, todas as afirmações são aleatórias e nunca falam em números.
Senão vejamos: A primeira afirmação se seguiu as seguintes considerações.
“De acordo com Adi dos Santos Lima, 44, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABCD, um dos mais importantes do país, e presidente do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o setor perdeu cerca de 100 mil trabalhadores em dez anos. ‘Grande parte desse desemprego foi causado pela reestruturação produtiva, que incluiu a implantação de novas tecnologias, as mudanças organizacionais e a terceirização’, disse ele”.
Mais adiante, novas considerações e novos números:
“Outra categoria que sofreu com a modernização foi a dos bancários. O sindicato estima que a tecnologia e a crise extinguiram 200 mil postos de trabalho no país. ’Serviços que antigamente eram feitos por funcionários, hoje são realizados pelos próprios clientes, e eles pagam por isso. Digitador é uma função que nem existe mais. Outras não existiam antes, como o atendimento telefônico. Mas não em quantidade suficiente para absorver o que já foi perdido’, disse o presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, João Vaccari Neto”.
Seguindo adiante, o texto é ainda mais preciso.
“O economista e professor do departamento de engenharia de produção da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Francisco José da Costa Alves, disse que cerca de 100 mil postos foram fechados na região de Ribeirão Preto devido à mecanização do corte de cana-de-açúcar e à crise do setor sucroalcooleiro. ’A partir do momento em que se alcança um novo patamar tecnológico no setor -o corte sem queima-, essa situação toma mais força. A introdução de uma máquina desemprega 150 pessoas e cria oito vagas.’”.
Continua:
Escrito por Lauro Monteclaro às 19h11
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Continuação:
Compare isso com a afirmação de que nos EUA e no Japão foram criados “novos setores” a partir do aumento de produção. Que setores seriam esses? Quantos empregos geraram? Por que esses “setores” não foram criados no Brasil? Além disso, em que o Sr. Sérgio Mendonça se baseia para nos brindar com tão precisas informações?
A segunda afirmação, está contida em um de vários textos da página D8 do caderno “Dinheiro” da Folha de S. Paulo. Sob o sugestivo título geral de “Lavoura Moderna”, seguido da frase: “Uso de máquina no campo gera onda de desempregados em fazendas de monocultura no Centro-Oeste”, Podemos ler os seguintes artigos:
“Mecanização engorda fileira de sem-terra”, “Prefeito em GO demite 2.000 trabalhadores”, “Em 20 anos, SP elimina colheita manual de cana” e finalmente “Máquinas avançam e campo tende a ficar com menos empregados”. Em todos os textos são citados números, bem como as fontes de informação, quase sempre Institutos de Pesquisas e órgãos oficiais.
Um “infográfico” no centro da página, com o título de “Desemprego gerado pela mecanização”, mostra através de um gráfico de barras, “Quantas vagas são fechadas para cada vaga aberta pela mecanização”. Os números são: Algodão = 60, Cana = 400 e Feijão = 400.
Muito bem, onde estão os números sobre os empregos gerados nos “outros pontos da cadeia econômica”. Quantos postos de trabalho foram criados na indústria de processamento das produções e no complexo exportador? Nenhuma palavra a respeito. Mas o Sr. Luiz Antonio Nabhan Garcia tem absoluta certeza de que “no conjunto” o “sistema” gera mais empregos do que elimina.
Nesse caso, nem ele nem a UDR deveriam se preocupar com as invasões de terra que se multiplicaram no estado de Goiás. Poderia mesmo ignorar a frase de João Pedro Stedile: “O MST não precisa fazer trabalho de base, o agronegócio está fazendo por nós”.
Por outro lado, os ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Trabalho, não quiseram comentar o assunto. Isso porque reconhecem que não tem dados atualizados sobre o desemprego rural. O último censo agropecuário é de 1996. Mesmo assim, não faz muito tempo, várias autoridades do governo, incluindo-se o ministro Palocci, afirmaram que os “empregos estão no campo”.
É cômico se não fosse trágico...
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Notas :
(1) “Nova tecnologia e crise fecham 400 mil vagas nos últimos 10 anos” - Folha de S. Paulo (Folha Campinas), 24 de Setembro de 2000.
(2) “Máquinas avançam e campo tende a ficar com menos empregados” – Folha de S. Paulo, 12 de setembro de 2004.
Escrito por Lauro Monteclaro às 19h10
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