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Ser pobre é condição para se ter empregos

 

Dentro do novo paradigma econômico da globalização que implica na concorrência direta entre trabalhadores de todo o mundo, a condição para se obter e manter empregos é permanecer sempre pobre.

 

No princípio dos anos 1990 um novo fenômeno associado à globalização passou das discussões técnicas na área de recursos humanos para as manchetes dos grandes jornais. Refiro-me ao “outsourcing” ou simplesmente terceirização, mas com a característica de transferir empregos de países desenvolvidos para países “emergentes”.

 

O fenômeno ganhou relevância a partir da transferência de inúmeras atividades de serviços principalmente da Grã-bretanha e dos EUA para a Índia. Logo ficaram famosos os “call centers” que estavam sendo instalados em Bangalore, onde os operadores de “telemarketing” indianos aprendiam a imitar o sotaque britânico ou norte-americano de modo a parecer que na verdade trabalhavam nesses países.

 

A novidade foi logo saudada como um novo triunfo da globalização e das novas tecnologias de informática e telecomunicações. Dizia-se que o mundo “tinha ficado plano” conforme o livro ufanista escrito por Thomas L. Friedman. (1)

 

As objeções de que essa prática eliminaria empregos nos países desenvolvidos foram respondidas com a afirmação de que se tratava de empregos de baixa remuneração e que exigiam pouca “criatividade”. Portanto isso apenas ajudaria a criar empregos em países mais pobres sem afetar o emprego nos mais ricos, onde logo surgiriam muitos outros empregos ligados à própria área de tecnologia.

 

Quando o “outsourcing” começou a incluir projeto e desenvolvimento de software, serviços de contabilidade, analise financeira e até diagnósticos clínicos por imagens, feitas por médicos indianos que ganhavam uma fração de seus colegas “desenvolvidos”, esse argumento caiu por terra. Mas de qualquer forma, dentro da “Nova Economia” as coisas não precisavam fazer muito sentido.

 

A conclusão era que a globalização permitiria uma melhor distribuição de renda entre trabalhadores de todo o mundo. Em outras palavras, algumas pequenas reduções nos salários dos países desenvolvidos poderiam ocorrer “provisoriamente”, mas seriam largamente compensadas tão logo os trabalhadores dos países em desenvolvimento fossem incluídos no circuito global do fluxo de produção da riqueza.

 

Previa-se que em “curto prazo”, os trabalhadores da Índia ou da China fossem cada vez mais bem remunerados e seu consumo beneficiaria exatamente os países desenvolvidos, gerando empregos em empresas voltadas à exportação de artigos mais sofisticados como computadores pessoais, por exemplo.

 

O fato de a China ter logo passado a ser o maior “fabricante” de computadores do mundo, passou desapercebido. A constatação de que a imensa maioria das bugigangas eletrônicas consumidas pelos trabalhadores dos países “recém incluídos” na globalização, passou a ser fabricado nesses mesmos países e, alem disso, exportado para os desenvolvidos, também foi devidamente saudado como mais um triunfo da globalização.

 

Continua:



 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h20 [ ] [ envie esta mensagem ]



Continuação:

 

Mas restava uma questão problemática. Os eternos chatos (entre os quais me incluo), que insistem em estragar a festa, argumentavam que o “outsourcing” criava um paradoxo: Os países “incluídos” na globalização por meio da oferta de mão-de-obra barata, ficavam dependentes do fato de essa mão-de-obra permanecer sempre barata. Em outras palavras, para criar e manter empregos, os trabalhadores tinham de ser mantidos pobres.

 

O argumento era de que os trabalhadores dos países desenvolvidos eram substituídos por outros mais pobres exclusivamente porque esses últimos eram pobres e, portanto, a única “vantagem competitiva” desses trabalhadores era o fato de ganharem salários baixos. A perspectiva sombria era que qualquer tentativa de elevar esses salários, faria com que as empresas “globais” procurassem novos mercados de trabalho, onde os salários fossem ainda mais miseráveis.

 

A lógica disso não pareceu incomodar os apologistas do novo paradigma, que passaram a simplesmente negar essa possibilidade. Mas notícias recentes confirmam largamente essas previsões pessimistas, senão vejamos.

 

Em recente artigo do “Le Monde” (2) podemos ler que: “Enfraquecida pelo forte crescimento dos salários dos engenheiros, pela valorização da rupia em relação ao dólar, e pelo surgimento de concorrentes da Europa do Leste ou da Ásia, a indústria indiana de informática está passando por um período complicado”.

 

O que estaria acontecendo? A reposta é simples:

 

“Os preços dos aluguéis andaram disparando em cidades como Bangalore ou Hyderabad, enquanto o mesmo tem acontecido com os salários dos engenheiros em informática. Os engenheiros de baixa remuneração que fizeram a fama do país no mercado internacional tornaram-se raridades”.

 

E para tornar as coisas ainda piores:

 

“Não só os salários vêm aumentando no ritmo de 15% a 20% por ano, como outros engenheiros que recebem remunerações equivalentes, e até mesmo inferiores, lhes fazem concorrência na Europa do Leste ou em certos países asiáticos como a China ou o Vietnã”.

 

Uma curta frase formaliza definitivamente a confirmação dos argumentos que os “chatos” vem apresentando desde os anos 1990: “Com isso, a Intel anunciou a sua decisão de recrutar engenheiros no Vietnã, alegando que não havia mais razão para contratá-los na Índia”.

 

Como o artigo tem como foco uma analise meramente econômica de um grupo de empresas em particular, não houve a costumeira preocupação em esconder a realidade, que sempre afirmamos existir:  A “baixa remuneração” e não uma suposta “competência especial” ou “disposição para trabalhar duro”, sempre foi o único motivo para a contratação desses engenheiros, e como isso vem mudando, não existe mais nenhuma “razão para contratá-los na Índia’.

 

Agora está muito claro o que ira acontecer com quaisquer outros ramos de atividades em que os salários subam. Os trabalhadores da Índia e da China nunca poderão atingir um nível de vida alem de um patamar muito abaixo daqueles de seus colegas dos países desenvolvidos.

 

De outro modo, sempre haverá trabalhadores mais baratos em países ainda mais miseráveis em outros países da Ásia, da Europa ex-comunista ou até da África sub-saariana. Em resumo, para ter empregos será necessário ser eternamente pobre.

 

__________________

(1) “O Mundo é Plano: Uma breve História do século XXI“ - Thomas L. Friedman

(2) “Indústria indiana de informática passa a priorizar serviços de maior valor agregado” - Julien Bouissou - Correspondente em Nova Déli – Le Monde – 19/07/2007



 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h19 [ ] [ envie esta mensagem ]



A crítica de George Soros a Globalização

 

Era de se esperar que o mega investidor (e especulador), que ganhou bilhões de dólares nos mercados financeiros, fosse um defensor intransigente da ordem econômica atual. Mas em seu livro mais recente, as opiniões que expressa se parecem muito com a dos críticos mais ferozes do sistema:

 

”O surgimento da globalização, que remonta ao inicio dos anos 80 e que credito a influencia de Ronald Reagan nos Estados Unidos e a Margaret Thatcher na Inglaterra, foi um projeto de mercado fundamentalista. Facilitar o fluxo internacional de capital tornou mais difícil, para os governos individuais, taxá-lo ou regulamentá-lo. Como o capital é um fator essencial para a produção, os governos devem dar mais atenção às exigências do capital internacional do que a seus próprios cidadãos”.

 

“A globalização, em sua forma atual, resultou numa ordem mundial assimétrica: O desenvolvimento das instituições internacionais não acompanhou o ritmo do crescimento dos mercados financeiros globais. O fluxo de capital privado supera de longe os meios do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Os países em desenvolvimento competem para atrair capital, mas a poupança mundial está sendo absorvida para financiar o superconsumismo nos Estados Unidos”.*

 

Não podia ser mais franco e direto! Principalmente vindo de alguém que se cansou de lucrar com isso. Os adeptos do “oba! oba!” da globalização, especialmente aqueles que acusam qualquer crítico como “esquerdista ultrapassado”, devem dar uma rápida parada para pensar, no mínimo... 

 

* SOROS, GEORGE - “A Era da Insegurança: As Conseqüências da Guerra Contra o Terrorismo” – Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, pág. 101.



 Escrito por Lauro Monteclaro às 19h01 [ ] [ envie esta mensagem ]



A tecnologia como causa direta do trabalho precário II

 

Nosso texto anterior causou certa perplexidade em alguns dos nossos leitores e mesmo certa confusão. Esse complemento visa tentar esclarecer de forma mais esquemática o nosso raciocínio.

 

Minha tese básica é a de que o trabalho precário surgiu em função da “racionalização” das atividades ocupacionais, de modo que cada profissional execute exclusivamente o trabalho para a qual está qualificado ao máximo, e apenas pelo tempo em que esse trabalho é realmente necessário.

 

Isso significa que as novas tecnologias, e os métodos gerenciais por elas viabilizados, tem sido empregadas sistematicamente com o objetivo de eliminar todo o “tempo” de trabalho pago que não se enquadra nessa categoria. Em outras palavras, embora o “trabalho” em si possa não ter diminuído, a necessidade de profissionais em tempo integral tem caído vertiginosamente.

 

Definimos que para cada atividade profissional, além do tempo ocupado pelas tarefas em que o trabalhador usa sua “capacidade plena” em termos de qualificação e efetiva atuação, existe uma quantidade de tempo em que isso não acontece.

 

Essa quantidade de tempo se divide em duas: O tempo de “espera” e o tempo gasto em atividades onde as qualificações do trabalhador são subutilizadas. Chamamos essas últimas tarefas de “rotineiras” mesmo quando se trata de operações altamente especializadas, isso porque robôs e computadores estão em condições de executá-las.

 

Desse modo vamos ficar com as seguintes definições para a distribuição do tempo de ocupação durante uma jornada de trabalho:

 

A)    Tempo de trabalho “pleno”: É aquele em que o profissional executa uma tarefa que exige toda a sua especialização. Exemplo: Profissional de marketing quando cria uma nova campanha publicitária.

B)     Tempo de trabalho “rotineiro”: É aquele em que o profissional executa uma tarefa aquém da sua especialização. Exemplo: Advogado digitando um documento jurídico.

C)    Tempo de “espera”: É aquele em que o profissional, mesmo estando à disposição do empregador, simplesmente não pode atuar. Exemplo: Contador que aguarda a impressão de um relatório para tomar decisões.

 

Devemos reparar que nesses casos, não estamos nunca levando em conta os tempos “mortos”, gastos em atividades que não se relacionam ao trabalho em si (conversar, distrair-se, etc). Nem os tempos necessários às necessidades básicas (banheiro, cafezinho, lanche, etc).

 

Em todos os casos, o tempo de trabalho da jornada é todo pago pelo valor “mais alto”, ou seja aquele que definimos como “pleno”. Nos exemplos que demos não seria admissível pagar valores diferentes para cada hora do dia por exemplo. Mas poderíamos providenciar algumas coisas:

 

Continua:



 Escrito por Lauro Monteclaro às 17h57 [ ] [ envie esta mensagem ]



Continuação:

1)      Evitamos que advogados tenham de digitar documentos criando modelos pré-redigidos e  transferindo os dados dos processos, já armazenados, para eles.

2)      Fornecemos aos contadores as informações na tela de um computador em tempo real.

3)      Transferimos boa parte do trabalho para pessoas que estão em suas próprias casas, de modo que não teremos de pagar nada além do tempo que elas dedicam efetivamente a empresa.

 

Devemos notar que todas essas providencias são perfeitamente possíveis nos dias de hoje, graças às tecnologias de informática e telecomunicações disponíveis. Nesse caso, a generalização dessas providencias, levará a uma redução significativa nos tempos de trabalho “rotineiro” e de “espera”.

 

É desnecessário dizer que o número de profissionais necessários ira se reduzir também. Se pudermos transferir o trabalho “rotineiro” dos advogados, de modo a que se limitem a escolher o modelo adequado de documento, precisaremos de um número menor deles.

 

Se fornecermos as informações contábeis em tempo real na tela de um computador, um contador poderá “monitorar” várias empresas, ou filiais da mesma empresa, ao mesmo tempo. Alem disso, pessoas que trabalham em casa não poderão cobrar pelas horas que gastam com alimentação, necessidades fisiológicas, etc.

 

Em todos esses casos, estaremos eliminando “empregos” mas não necessariamente “trabalho”. Ocorre que no atual estágio de desenvolvimento das sociedades humanas, é o “emprego” que dá ao indivíduo a sua referência ou “posição social”.

 

Em uma metrópole urbana, nenhuma pessoa se refere a si mesma como membro de um determinado clã, grupo familiar, associação religiosa, cultural ou esportiva. Se você pergunta a um cidadão de uma metrópole quem ele é, a resposta será a profissão seguida da descrição de seu empregador. Mesmo um abastado banqueiro dirá que é esse o seu “negócio” (sou banqueiro) e em seguida dirá o nome do banco que possui.

 

Ninguém se apresenta como “descendente de portugueses, da família Souza, diácono da igreja de Santa Terezinha, apreciador de forró e corintiano”, por exemplo. A mesma pessoa provavelmente irá se apresentar como “torneiro mecânico, funcionário da Volkswagen”.

 

Da mesma forma, ninguém se sente à vontade em se descrever como uma pessoa que faz “trabalhos temporários de digitação, dá algumas aulas particulares de inglês e às vezes faz uns bicos como motorista, segurança ou garçom, dependendo do que aparecer”.

 

Mesmo que essa pessoa tenha uma renda muito superior a de um “funcionário da prefeitura”, por exemplo, ela se sentirá inferiorizada. Embora do ponto de vista do modo de produção capitalista, a pessoa que “vive de bicos” e ganha bem, seja mais valorizada, as ideologias que dão suporte ao sistema não sustentam esse raciocínio.

 

O motivo é simples: Se do ponto de vista do empregador o que interessa é a capacidade do indivíduo de realizar “trabalho”, do ponto de vista do trabalhador o importante é o “emprego”. Isso não decorre de uma tendência das pessoas a “acomodação” e a “preguiça” e sim aos sistemas de valores das sociedades da qual fazem parte.

Continua:



 Escrito por Lauro Monteclaro às 17h56 [ ] [ envie esta mensagem ]



Continuação:

E esses sistemas têm todos uma coisa em comum: Valorizam sobretudo a “estabilidade” do indivíduo acima de seus ganhos pecuniários, mesmo que muito elevados. Somente essa condição permite um grau mínimo de previsibilidade, em relação às intenções e futuros comportamentos das pessoas, fator indispensável em qualquer estabelecimento de “contratos” sociais.

 

Um funcionário do “Banco do Brasil” dificilmente larga a esposa e os filhos, deixa de pagar suas contas, abandona sua religião, suas convicções políticas e seu circulo de amizades. Mas uma pessoa que vive de seus conhecimentos de montagem de “sistemas on-line” e que trabalha “por projeto”, poderá ser tentada ou até forçada a agir dessa forma.

 

Isso ocorrerá porque seus ganhos serão variáveis e a necessidade de mudanças (deslocamento físico, troca de ambiente, tipos de pessoas com que convive, idéias e costumes aos quais estará exposta, etc) serão uma parte integrante de sua existência.

 

Alguém pode argumentar que isso já é assim para muitas profissões, como por exemplo: diplomatas, militares, marinheiros, repórteres, comissárias de bordo, etc. Mas ai o caso é muito diferente. Essas pessoas normalmente mantêm um sólido vínculo com alguma instituição ou empresa que lhes serve de referência.

 

Mas, num mundo totalmente “globalizado” e sem qualquer vínculo com o que quer que seja, uma pessoa que vive exclusivamente do seu “trabalho” torna-se instável. E isso pode ser observado nas profissões que mencionamos, sempre que a relação estável (o emprego) deixa de existir.

 

Diplomatas podem virar espiões, militares se tornam mercenários, marinheiros se tornam contrabandistas, repórteres viram chantagistas, comissárias de bordo viram “dançarinas”, etc. Em outras palavras, sem um conjunto de “lealdades” de longo prazo, os padrões morais e éticos tendem a cair rapidamente.  

 

Esse é um perigo muito real para as sociedades em que a tecnologia e os métodos gerenciais sejam projetados, cada vez mais, para extrair apenas o “trabalho pleno” das pessoas. O desaparecimento gradual do emprego pode levar sociedades inteiras a se tornarem “instáveis”. 

 

Temos de considerar que o emprego formal, com jornada de trabalho integral e por tempo indeterminado, é muito mais do que uma simples reivindicação “comodista” das classes trabalhadoras. É uma condição vital para a manutenção da coesão das sociedades contemporâneas.

 

A menos que se descubra como distribuir a renda obtida com os espetaculares aumentos de produtividade, proporcionados pelas novas tecnologias, de forma independente do trabalho de cada um, teremos um colapso social num horizonte não muito distante.      

________________________

A primeira parte do texto está em: http://lauromonteclaro.sites.uol.com.br/Meus_Artigos/Tecnologia_trab_prec.htm



 Escrito por Lauro Monteclaro às 17h55 [ ] [ envie esta mensagem ]



Classe média e outros mitos do desemprego tecnológico III

 

Após os dois textos em que tratamos da crise generalizada da classe média, tanto no Brasil como no mundo todo, procuraremos solidificar a relação entre “classe média” e o desemprego tecnológico.

 

Muitos dos nossos leitores concordaram com nossa exposição sobre o fato de a classe média estar em uma crise profunda, e que a causa disso não está especificamente ligada a um estrato populacional específico, visto como uma “espécie biológica”. Afirmamos que a crise da classe média é de fato a crise provocada pelo desemprego tecnológico.

 

Nesse aspecto alguns levantaram algumas objeções quanto à questão da composição da classe média. Ou seja, todos os estudos na prática se baseiam em “renda” e não necessariamente em salários.

 

Em obra recentemente publicada sobre o assunto (1), os autores “notam que a forte industrialização brasileira de 1930 a 1980 levou à emergência de uma ‘classe média assalariada’, formada por gerentes, administradores, burocratas e professores universitários. Ligado a grandes empresas e ao dinamismo industrial, esse estrato se contrapunha à antiga ‘classe média proprietária’, composta por pequenos proprietários rurais, proprietários de negócios comerciais e profissionais liberais”.(2)

 

Embora os valores possam variar de pessoas que ganham mais de três salários mínimos por mês  (para o Caged – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho), de R$ 2.275,00 á R$ 25.200,00 (para o “Atlas da Nova Estratificação Social do Brasil – Classe Média”) ou de R$ 3.000,00 e R$ 15.000,00 para a “Veja” (cujo parâmetro seria semelhante ao do Banco Mundial), o fato é que sempre existe a referência apenas ao “rendimento”.

 

Nesse caso, temos duas variáveis a considerar: A primeira diz respeito à porcentagem da classe média que é de fato assalariada e a que obtém seus rendimentos por meio de negócios próprios, ou outras rendas. A segunda diz respeito à segmentação da própria classe média, uma vez que mesmo o grupo assalariado não é hegemônico.

 

Para que nossas conclusões se apliquem, ou seja, que o encolhimento da classe média seja atribuído principalmente à reestruturação produtiva, da qual resulta o desemprego tecnológico, devemos estar falando apenas de assalariados e dentro desse grupo, de profissões ou ocupações específicas.

 

Quanto ao primeiro aspecto, podemos afirmar que: “Com dados do IBGE, os economistas mostram que em 1980 os assalariados desse estrato social respondiam por 31,7% da População Economicamente Ativa (PEA) ocupada nas regiões urbanas. Após 20 anos, essa participação despencou para 27,1%”.(3)

 

Um artigo de “Veja” que mencionamos nos textos anteriores, nos informa que: “No início da década de 80 os assalariados representavam 65% da classe média. Hoje são pouco mais de 50%”.(4)

 

Com esses números, percebemos que de fato a crise da classe média se localiza preferencialmente no grupo assalariado, tendo pouco ou nenhum peso sobre a parte da classe média “proprietária”. Isso reforça nosso argumento de que estamos tratando de desemprego e queda de salários.

 

Continua:



 Escrito por Lauro Monteclaro às 17h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



Continuação:

 

Mas devemos nos lembrar de que mesmo a classe média assalariada não é hegemônica e portanto devemos levar esse fato em conta. Para isso iremos nos valer do seguinte trecho de texto já mencionado:

 

“Mais emblemático da crise foi o aumento da desigualdade dentro da classe média. A fatia da classe média-baixa (professores, lojistas, vendedores, entre outros) passou de 44,5% do total do estrato, em 1980, para 54,1% em 2000. A da classe média-média (ocupações técnico-científicas, postos-chaves da burocracia pública e privada) caiu de 32,2% para 23,1%, enquanto a da classe média-alta (executivos, gerentes,  administradores) teve certa estabilidade no período (de 23,2% para 22,8%) “.(3)

 

Ou seja, a verdadeira “perdedora”, de acordo com os autores seria a classe “média-média” onde estariam “ocupações técnico-científicas, postos-chaves da burocracia pública e privada”. Em outras palavras, é onde se localizam os profissionais mais vulneráveis aos processos de automação e informatização.

 

Na indústria, é onde se situam, por exemplo, os ferramenteiros e inspetores de qualidade, tornados supérfluos pelo sistema toyotista. É onde estão os torneiros mecânicos e operadores de máquinas em geral, muito reduzidos em número pelas máquinas de controle numérico computadorizadas e pela robotização.

 

Também na indústria é onde se situam as estruturas de “comando e controle” com seus preparadores, desenhistas, calculistas, etc.; É onde se posicionam os contadores, faturistas e técnicos em RH. Nos setores de comércio e serviços, é onde se situa toda a cadeia de comando intermediária. Todos tornados mais ou menos supérfluos ou drasticamente reduzidos em número pela informatização. 

 

Devemos notar que professores, lojistas e vendedores (classe média-baixa) raramente são afetados por processos de “reestruturação produtiva”. Esses mesmos processos também costumam afetar os cargos de  executivos, gerentes e  administradores apenas de forma indireta. Isso porque essas categorias tendem a “encolher” não por sua substituição por tecnologia, mas devido ao próprio “enxugamento” das estruturas de produção.

 

Em resumo, podemos afirmar sem a menor dúvida que os números mostram uma forte relação entre desemprego tecnológico e crise da classe média. De qualquer forma o resultado está ai:

 

“Entre 1980 e 2000, como efeito do pífio crescimento da economia e do ajuste do mercado de trabalho, cerca de 10,1 milhões de trabalhadores de classe média perderam o emprego. Destes, sete milhões não conseguiram mais recuperar o posto e a renda anteriores, deixando de compor a classe média no país”.(3)

____________

Notas:

 

(1)   “Classe média — desenvolvimento e crise”, trabalho dos economistas Marcio Pochmann, Alexandre Guerra, Ricardo Amorim e Ronnie Silva.

(2)   “Para os mais pobres, um crescimento chinês” - O Estado de S. Paulo - 12/11/2006.

(3)   “7 Milhões saem sa classe média no Brasil” - Aguinaldo Novo - O Globo - 8/3/2006 - Editoria: Economia – Pág. 38.

(4)   “Congelaram a classe média” - Giuliano Guandalini e Julia Dauailibi -  Veja – 20/12/2006 -  Pág. 68.



 Escrito por Lauro Monteclaro às 17h59 [ ] [ envie esta mensagem ]



Classe média e outros mitos do desemprego tecnológico II

 

Nessa semana, foi à vez da revista Veja abordar a decadência da classe média. Notamos como de costume, uma distorção completa na abordagem do problema. De novo tudo parece estar circunscrito ao Brasil e a uma “espécie biológica” em particular.

 

Sobre a questão que abordamos no último texto, onde criticamos artigos da “Folha de São Paulo”, notamos que o problema mais do que evidente da decadência da classe média já não pode mais ser ignorado pelos grandes veículos de comunicação. Tanto que nessa semana, recebeu a atenção da revista “Veja”, como reportagem de capa.

 

Mas, longe de apontar para a questão real, ou seja o do brutal e irreversível desaparecimento de empregos estáveis, bem remunerados e com benefícios sociais, base da classe média em todo o mundo, a revista também resvala para o já clássico método de estabelecer a “classe média” como uma “espécie biológica” com características próprias.

 

Nesse ponto o artigo de Veja, intitulado “Congelaram a classe média” (20/12/2006, pág. 60) é exemplar. Há até mesmo uma dupla de fotos do que seria a classe média em 1981 e nos dias de hoje. As fotos da página 66 mostram uma família de quatro pessoas que representariam a “classe média” cercada de seus “objetos de desejo”.

 

As pessoas e o arranjo de objetos mostrados poderiam ser interpretados como do mesmo tipo que se faz para retratar o “mico-leão-dourado em seu ambiente natural”. Assim, o “espécime de classe média” aparece ao lado do “seu” automóvel, aparelho de TV, som e outros objetos típicos de seu “habitat”.

 

O artigo de Giuliano Guandalini e Julia Duailibi vai até mais além, cita uma observação de Sigmund Freud, segundo eles “um respeitável integrante da classe média vienense” que teria dito a sua noiva, referindo-se a um grupo de operários, que: “Há uma psicologia do ´povo´ que é bem diferente da nossa”. (pág. 62)

 

Em outras palavras, o valor do contra-cheque ou do holerite de uma pessoa não tem praticamente nenhuma relação com sua condição de “classe média”. Isso depende apenas de seus hábitos peculiares e até de uma “psicologia” muito especial.

 

A conclusão é óbvia: Todo o problema da decadência da classe média seria uma espécie de “crise ecológica” muito rara, e circunscrita a esse grupo específico de “espécimes”, e alem disso, só se refere ao Brasil.

 

Como de costume, são lembrados os problemas típicos de nosso país: Baixo crescimento econômico, altas taxas de juros, gigantesca carga tributária, etc. Portanto nada que o perdulário governo brasileiro não posa resolver com “vontade política”.

 

O artigo evita cuidadosamente abordar o problema idêntico que ocorre nos Estados Unidos, no Japão e em todos os países da comunidade européia. Nas 9 páginas do texto, o assunto nunca é mencionado. Mas na página 60, se mostra como a classe média cresceu no México, na Índia, na Rússia e na China.

 

Devemos nos lembrar que nos países desenvolvidos, a ”explicação oficial” sobre a decadência da classe média é justamente o “outsourcing” ou “exportação de empregos” para os mesmos países citados como exemplo de como se deve “criar” classe média.

 

Continua:



 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h39 [ ] [ envie esta mensagem ]



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A propósito, podemos ler no “Der Spiegel” (25/10/2006 – por Gabor Steingart), um artigo com o sugestivo título: “Classe média dos Estados Unidos é o primeiro grupo derrotado pela globalização”:

 

“No início do século 21, os Estados Unidos ainda são uma superpotência. Mas uma superpotência que enfrenta a concorrência que está além das suas fronteiras, bem como dificuldades internas. As suas classes baixa e média estão se revelando as derrotadas da globalização”.

 

Sabemos que na Europa, notadamente na França e na Alemanha o mesmo problema é “explicado” pela rigidez das leis trabalhistas que, ao garantir “privilégios”,  estariam “inibindo o investimento”. Em outras palavras, a classe média européia, ao defender sua posição, e rejeitar propostas como o “contrato do primeiro emprego” seria ela própria à culpada por sua destruição.  

 

Mas a reportagem de Veja traz uma informação importante sobre um estudo feito por Sérgio Vale, da consultoria MB Associados: “Seu estudo demonstra que, entre 2001 e 2006, a maior expansão na contratação de pessoas com nível universitário se deu na faixa de até três salários mínimos. Enquanto isso, na faixa acima de dez salários mínimos, típica da classe média, houve destruição de vagas”.(Pág. 64)

 

Considerando que três salários mínimos é o nível onde, segundo os economistas, começa a classe média, podemos concluir que a maioria das pessoas com “nível universitário”, ou seja os filhos da classe média, simplesmente estão “ingressando” nas faixas de “baixa renda”.

 

De tudo o que vimos, as conclusões que podemos chegar são as seguintes:

 

1)      A classe média dos países ricos estaria desaparecendo na mesma proporção em que cresce nos países exportadores de mão-de-obra barata. Mas trata-se, obviamente, de classes médias muito “menos médias” do que as dos países desenvolvidos.

2)      O problema também afeta à classe média brasileira, concentrada nos sudeste do país, onde ficam as nossas “ilhas” de desenvolvimento econômico.

 

A pergunta que fica sem resposta então é: Onde estão os milhões os empregos em alta tecnologia e em novos ramos de negócios que deveriam surgir, segundo a lógica das revoluções industriais do passado, ou dos “ciclos econômicos” ou ainda da “destruição criativa”?

 

Não seriam precisamente esses empregos, muito mais sofisticados e “criativos”, que exigiriam muito mais estudos e capacitação, que estariam à disposição da classe média dos países desenvolvidos e das “ilhas de desenvolvimento” no terceiro mundo?

 

Onde estão esses empregos que insistem em não aparecer? Ou será que nosso velho temor está se realizando: As novas tecnologias e métodos gerenciais estão eliminando empregos numa proporção muito maior do que podem criar?

 

A decadência da classe média, por todo o mundo, é um sinal claro de que as projeções mais pessimistas estão de fato se concretizando.



 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h38 [ ] [ envie esta mensagem ]



“Classe média” e outros mitos do desemprego tecnológico

 

Nas últimas décadas vem se enraizando o mito do empobrecimento  “classe média”. Na realidade, o que vem ocorrendo é o desaparecimento gradativo e irreversível dos empregos estáveis e bem remunerados, por conta da reestruturação produtiva baseada nas novas tecnologias.

 

Já se tornou um lugar comum à publicação de pesquisas de todo tipo, em todos os países, desenvolvidos ou “em desenvolvimento”, cuja conclusão principal é um forte “empobrecimento” do que se convencional denominar de “classe média”.

 

A maioria desses estudos no entanto, parece misturar deliberadamente conceitos muito diferentes para “explicar” fenômenos que, de outra maneira, parecem escapar aos seus métodos tradicionais de análise.

 

O erro fundamental está na definição da existência de uma “classe média” como sendo um segmento da população com características perfeitamente delineadas e imutáveis. É comum a apresentação de estudos em que se fala em “classe média” da mesma forma que se faz referencias a “afros-descendentes”, “mulheres trabalhadoras” ou “homens entre 40 e 50 anos”.

 

Em seguida conclui-se que esse ou aquele segmento apresentaram perdas ou ganhos salariais, aumento ou redução de sua participação no mercado de trabalho, no consumo de determinados bens, na adoção de determinados hábitos, etc.

 

Tudo se passa como se a condição de pertencer a “classe média” fosse uma espécie de condição biológica, determinada por raça, cor, gênero ou idade. Um exemplo típico dessa abordagem o artigo da Folha de São Paulo, de 10 de dezembro de 2006, que traz o título: “Renda da classe média cai 46% em 6 anos”.

 

Além da manchete bastante tendenciosa: “Sob Lula, classe média é a que perde” (As perdas começaram há seis anos e, portanto, já vem da época do governo anterior), esses critérios são utilizados em uma série de artigos do caderno “dinheiro”.  

 

Duas frases servem de “subtítulo”: “Parcela da população que ganha acima de três salários mínimos perde 2 milhões de empregos formais desde 2001”. E em seguida: “Em contrapartida, trabalhador que recebe até 1 mínimo vê aumento de 124% nos ganhos e saldo de 2,2 milhões de vagas”.

 

A conclusão parece indicar que 2 milhões de indivíduos, devidamente identificados como da “classe média”, passaram a viver na ociosidade, ou imigraram ilegalmente para os EUA e Europa. Enquanto isso, 2,2 milhões de indivíduos, também perfeitamente identificados como “classe C e D”, deixaram seus passatempos prediletos para se dedicar ao trabalho remunerado.

 

A hipótese elementar de que milhões de indivíduos simplesmente “desceram” da classe média para as classes “inferiores”, não parece ocorrer ao grupo de sábios que organizaram esses estudos. Na realidade fala-se até mesmo em “distribuição de renda”.

 

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 Escrito por Lauro Monteclaro às 16h38 [ ] [ envie esta mensagem ]



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Os “classe média” estariam subsidiando a melhoria das condições de vida dos mais pobres. As enormes perdas reais (46,3%) nos salários desse interessante grupo biológico, seria fruto da transferência de renda para um outro grupo de espécimes biológicos, os menos “menos favorecidos”.

 

Essas “piruetas” estatísticas têm por objetivo desviar-se da conclusão óbvia: A reestruturação da produção capitalista, baseada nas novas tecnologias de informação e telecomunicações, juntamente com as novas técnicas gerencias que viabilizam, estão promovendo uma enorme redução no número de empregos estáveis e bem remunerados.

 

Sabemos que o “desemprego tecnológico” atinge especialmente os operários mais especializados e os funcionários da administração intermediária, na indústria no comércio e no setor de serviços. Mas tem pouco impacto sobre os trabalhadores de “baixa renda”.

 

Robôs e computadores eliminam ferramenteiros e inspetores de qualidade, contadores e subgerentes, etc, mas tem pouca influencia sobre o número de faxineiras, empregadas domésticas, garçons, trabalhadores da construção civil, etc. É do primeiro grupo que sai a “classe média” e do segundo as classes de “baixa renda”.     

 

Logo, quando falamos no “encolhimento” da classe média, estamos falando na redução do número de empregos bem remunerados. Quando falamos em perda de renda dessa classe, falamos da acentuada perda do poder de barganha que ela enfrenta ao ter sua posição cada vez mais vulnerável devido às novas tecnologias.

 

Em outras palavras, não foi a “classe média” que perdeu 2 milhões de empregos e sim a sociedade como um todo. O fato de no mesmo período terem sido criadas 2,2 milhões de vagas remuneradas com no máximo um salário mínimo, não pode ser visto como uma “vitória” das classes menos favorecidas.

 

Na mesma edição da “Folha” há um artigo intitulado: “Ex-vendedora vê salário subir quase 400% até perder o emprego na 25 de março”. Trata-se de uma jovem de 22 anos que trabalhava a 5 no comércio da região. Ela começou ganhando R$ 315,00 o equivalente a 1,75 salário mínimo.

 

Depois desse tempo todo, ela passou a ganhar de R$ 900,00 a R$ 1200,00 dependendo das comissões. Logo, ela se tornou “classe média”. Mais daí aconteceu o que já é rotina na vida dessa “espécie biológica”: Foi demitida. Mais o que aconteceu com ela? Vive do seguro desemprego até encontrar nova vaga com o mesmo salário anterior?

 

Nada disso, a esforçada moça agora monta bijuterias “pra ajudar no orçamento” em casa. Com essa atividade ela ganha R$ 600,00 por mês, o que a coloca de volta nas classes de “baixa renda” dos estudos dos doutores em economia.

 

Mais não devia reclamar, pois ao mudar de “espécie biológica” ela agora conta com aumentos de rendimento “médio” muito maiores, alem de um “saldo de empregos” de no mínimo 2,2 milhões de vagas, ou seja,  “estatisticamente” ela é uma privilegiada...



 Escrito por Lauro Monteclaro às 16h37 [ ] [ envie esta mensagem ]



Capitalismo, socialismo e desemprego tecnológico II

 

Os regimes socialistas não têm meios de lidar com inovações tecnológicas destinadas ao uso civil. Um dos motivos é sua dificuldade em lidar com o desemprego tecnológico. Essa é a causa da obsolescência de seus sistemas produtivos.

 

Sempre causa enorme perplexidade aos historiadores e analistas políticos as contradições que envolveram os avanços tecnológicos na antiga União Soviética. De um inicio aparentemente muito promissor, o país passou a ser um símbolo de atraso e obsolescência.

 

Sem falar na velocidade com que o país se industrializou antes da segunda guerra mundial, no pós-guerra, a antiga União Soviética levou muito pouco tempo para alcançar os Estados Unidos em termos de armas nucleares, e o ultrapassou na corrida espacial.

 

Mas após esse inicio triunfal, o sistema de produção socialista aparentemente estagnou. Os produtos de consumo tornaram-se raros, de fornecimento irregular e de qualidade notoriamente inferior a qualquer coisa produzida num país “burguês”. Qual teria sido o motivo desse fracasso?

 

A resposta é relativamente simples. O complexo industrial-militar, tanto da URSS como dos EUA, não se preocupavam com custos ou produtividade. Cada unidade de produção era orientada somente para o resultado de metas políticas. Ninguém perguntava quanto custava produzir um novo míssil intercontinental ou o número de empregados necessários para levar uma nave espacial a Lua.

 

Nesse ambiente de fartura de recursos e indiferença pelos custos, tudo parecia ser possível de se realizar. Na verdade era uma economia de guerra e sua produção não se destinava ao povo e sim à satisfação dos dirigentes políticos das duas “superpotências”.

 

O fim real da guerra fria se deu muito antes da “queda do muro”. Na prática, muitos acreditam que a partir da “crise dos mísseis” em Cuba, ficou mais do que claro que as armas nucleares nunca seriam usadas. A “conquista do espaço” por sua vez, carecia de importância econômica real, e por isso, logo se tornou um “brinquedo” caro demais.

  

Aos poucos, os povos vencedores da segunda guerra mundial (e os perdedores também) não queriam mais saber de armas para uma nova matança e nem de glórias espaciais. Queriam boas moradias, automóveis, eletrodomésticos e objetos de consumo cada vez mais sofisticados.

 

Ocorre que para se fabricar um automóvel ou um televisor não se pode contar com recursos ilimitados. Não dá para contratar milhares de empregados e efetuar gastos inúteis sob a confortável alegação da “segurança nacional”. É necessária competência para produzir mais barato, mais rápido e com a máxima qualidade.

 

O “cliente” agora é o público em geral. Um “potentado” militar, seja de um país socialista ou de um capitalista, limita-se a assinar novas requisições caso considere que seus equipamentos deixam a desejar. Um cidadão comum deve contrair uma pesada dívida ou entrar em uma longa fila para obter um automóvel, por exemplo, e não pode se dar ao luxo de simplesmente jogar em um depósito o que não funcionar direito.

 

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 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h45 [ ] [ envie esta mensagem ]



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Isso exige fábricas eficientes onde à inovação tecnológica deve visar à produção contínua e não a uma meta global. Construir um avião invisível ao radar é muito diferente de fabricar milhares de toca-discos ou gravadores mini-cassete com qualidade e preço accessível.

        

Nesse segundo caso, é necessário racionalizar a produção e reduzir os custos ao máximo. A questão é que o caminho lógico para se obter isso é o uso intensivo da microeletrônica na automação dos processos de produção.

 

Mas a automação implica necessariamente em redução da necessidade de mão-de-obra, ou seja, provoca o fenômeno do desemprego tecnológico. A chamada “terceira revolução industrial” resulta em fábricas (e escritórios) onde o número de operários cai dramaticamente.

 

Nas economias “burguesas” essa situação nunca constrangeu os responsáveis pela produção, daí o sucesso com que os EUA e seus aliados puderam partir para a “reestruturação produtiva” sem muitos obstáculos.

 

Mas nas economias socialistas isso tem um preço político simplesmente inaceitável. Não dava para instalar controle numérico computadorizado e mandar torneiros mecânicos virarem camelôs. Muito menos instalar redes de computadores e mandar os camaradas burocratas virarem “perueiros”.

 

O argumento de que numa economia socialista a planificação pode superar o desemprego não se sustenta nesse caso. O fato é que a mão-de-obra que se torna redundante terá de ser remanejada de uma forma ou de outra. Então só restam duas opções:

 

1)      As estruturas burocráticas resistem a qualquer mudança e se esquivam com sucesso a “reestruturação produtiva” e nesse caso as instalações e todos os processos produtivos tendem a se tornarem progressivamente obsoletos. Ou;

2)      As mudanças são impostas de forma autoritária, de cima para baixo, a partir de “ditadores esclarecidos” que pouco se preocupam em adotar práticas que antes taxavam de “capitalistas”.

 

Não é preciso muita sagacidade para perceber que o primeiro foi o caminho trilhado pela URSS e o segundo pela Republica Popular da China. Os resultados também tornam evidente o que estamos tentando provar: O socialismo real é incompatível com o desenvolvimento tecnológico quando se trata de atividades não ligadas direta ou indiretamente a área militar.

 

Deng Xiaoping, o líder chinês na época do colapso da URSS não hesitou em reconhecer isso. Todo o atual processo de modernização da China é baseado nas novas tecnologias. Por outro lado, a manutenção do modelo de Estado autoritário demonstra que existe muito menos correlação entre “reestruturação produtiva” e democracia do que se acredita no ocidente.          



 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h45 [ ] [ envie esta mensagem ]



Capitalismo, socialismo e desemprego tecnológico

 

É um erro conceitual muito comum pensar no problema do moderno desemprego tecnológico  -derivado das aplicações intensivas da microeletrônica e das novas técnicas gerenciais- como existindo somente no modo de produção capitalista.

 

O desemprego tecnológico não é nenhuma novidade. Já David Ricardo (1772-1823), em seu livro “Princípios de Economia Política e Tributação” afirmava que: “...a opinião defendida pela classe trabalhadora de que o emprego da maquinaria é freqüentemente prejudicial aos seus interesses não emana de preconceitos ou erros, mas está de acordo com os princípios corretos da Economia Política”.

 

Mas o próprio Ricardo, adverte que não havia muito com o que se preocupar: “As afirmações que fiz não levarão, espero, à conclusão de que o uso da maquinaria não deve ser encorajado. Para elucidar esse princípio, eu supus que a maquinaria aperfeiçoada é repentinamente descoberta e usada extensivamente”.(1)

 

Em “O Capital”, Karl Marx afirma que: “Embora a maquinaria necessariamente desloque trabalhadores nos ramos de atividade em que é introduzida, pode, no entanto, suscitar aumento da ocupação em outros ramos”. Alem disso, “aumenta a procura de trabalho nos ramos ainda artesanais ou manufatureiros em que entra o produto da máquina”. Alem disso, ele acreditava que muitos empregos iriam surgir “em ramos totalmente novos” como a telegrafia, fotografia, etc. (2)

 

Como se vê, os dois ilustres pensadores estavam perfeitamente de acordo em que o desemprego tecnológico era um problema ainda remoto e de solução simples. Partiam do princípio de que as novas tecnologias nunca seriam “repentinamente” aperfeiçoadas, e usadas “extensivamente”, e que de qualquer modo, a “maquinaria” suscita “aumento de ocupação em outros ramos”.

 

Quando fala em “ramos totalmente novos”, que surgiriam na esteira da própria evolução tecnológica, Marx demonstra o mesmo entusiasmo dos que hoje fazem a apologia  da “nova economia”, geradora de mais e melhores empregos “criativos”, toda ela “baseada nos serviços”, “no silício”, “na biotecnologia”, etc.

 

Depois do colapso do “socialismo realmente existente” e da extensa “reestruturação produtiva” capitalista, com o aumento descontrolado do desemprego e a exportação de empregos para países de mão-de-obra barata (“offshore outsourcing” ou “offshoring”), tornou-se comum à crença, errada, de que o desemprego tecnológico se aplica exclusivamente ao modo de produção capitalista.

 

Para percebermos isso, temos de colocar a questão numa perspectiva mais ampla: Como uma economia, sendo “capitalista” ou “socialista”, reagia ao desemprego tecnológico tradicional? E como poderia reagiria agora? Como se deveria reagir a uma inovação tecnológica de valor inquestionável? 

 

Se um produto (ou serviço) puder ser produzido com menor quantidade de matéria prima, menor consumo de energia ou menos horas de trabalho, a lógica de qualquer sistema racional de produção, é que fatalmente o será. O desemprego tecnológico decorrerá sempre do surgimento de alguma inovação que torne parte da mão-de-obra redundante.

 

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 Escrito por Lauro Monteclaro às 18h43 [ ] [ envie esta mensagem ]